sábado, 11 de setembro de 2010

Manuel Bandeira (Lira dos cinqüent'anos - 1942)

BELO BELO



Belo belo belo,
tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo das constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.


- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

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